Bitcoin, ouro ou yuan: Nada ameaça a soberania do dólar sobre o sistema financeiro global, diz historiador Niall Ferguson

COVID-19 e guerra na Ucrânia reafirmaram a força e a dominância do dólar e a inconsistência das alternativas monetárias hoje disponíveis para substituí-lo, afirma historiador Niall Ferguson.

Ao longo da história, grandes guerras e surtos de doenças contagiosas mortíferas desencadearam transformações radicais no sistema financeiro internacional. O fim da paridade do dólar com o ouro foi motivada pelos gastos militares crescentes dos EUA na Guerra do Vietnam, obrigando o presidente Richard Nixon a decretar o fim do arranjo financeiro acordado na Conferência de Bretton Woods, em 1944, já na fase terminal da 2ª Guerra Mundial.

Retrocedendo um pouco mais na história, a conquista da América pelos espanhóis transformou a economia mundial ao aumentar a quantidade circulante de ouro e prata de forma significativa. Antes, a Guerra dos 100 Anos travada entre a França e a Inglaterra associada à peste negra provocou uma alta das commodities e marcou o ocaso do sistema feudal, alterando radicalmente as relações de trabalho devido ao fim da servidão.

Agora, dois anos de COVID-19 seguidos pela invasão da Rússia pela Ucrânia abalaram a estabilidade do sistema econômico mundial. Não são poucos os analistas de diversos campos e vertentes que apontam para a reconfiguração do sistema financeiro mundial com um retrocesso na globalização e o fim da hegemonia do dólar.

Entre as alternativas à moeda norte-americana, há desde a possibilidade de um retorno à era de formas monetárias lastreadas em commodities, como o ouro. Ou então, uma possível ascensão do yuan, dado que a China responde pelo comércio internacional em proporção similar aos EUA. E há aqueles que acreditam que chegou a vez dos ativos digitais. Neste caso, mais especificamente o Bitcoin (BTC), por sua natureza descentralizada, tecnicamente incorruptível e supostamente apolítica.

Há também quem defenda que o dólar não terá sua hegemonia ameaçada. O historiador norte-americano Niall Ferguson faz parte deste grupo e publicou um longo artigo na Bloomberg no último domingo, 1, para refutar todas estas alternativas como inconsistentes e reafirmar a soberania do dólar.

Após um preâmbulo histórico, Ferguson citou o trecho de um discurso de Larry Summers em uma conferência na universidade de Harvard, em novembro de 2019 – portanto antes de todas as recentes disrupções das ordens políticas e financeiras globais. Na ocasião, o o ex-secretário do Tesouro dos EUA observou:

““Você não pode substituir uma coisa por nada. Que outra moeda é preferível ao dólar como moeda de reserva e comércio, quando a Europa é um museu, o Japão é um lar de idosos, a China é uma prisão e o Bitcoin é apenas um experimento?”

Em seguida, Ferguson examina detalhadamente cada uma dessas alternativas para descartá-las paulatinamente.

Criptomoedas

Curiosamente, o historiador começa pelas criptomoedas, as quais ele não acredita que possam substituir o dólar, embora observe que ambos podem muito bem ser complementares.

Sob a perspectiva da guerra na Ucrânia, Ferguson defende que as criptomoedas falharam nos propósitos a que poderiam servir. Primeiramente, acreditou-se que a Rússia poderia burlar as sanções econômicas impostas pelos governos ocidentais recorrendo ao Bitcoin e outros criptoativos.

Aos poucos, mesmo inimigos declarados dos ativos digitais, como a atual secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, acabaram reconhecendo que as criptomoedas não são eficientes para que governos consigam contornar as restrições econômicas impostas por inimigos. Mesmo os cidadãos comuns acabaram prejudicados na medida em que exchanges de criptomoedas como a Coinbase e a Binance bloquearam o acesso de determinados usuários aos seus serviços.

Por outro lado, Ferguson assinala que mesmo naquilo em que foram bem sucedidas – no caso, em levantar fundos para a resistência ucraniana –, o papel das criptomoedas não chegou a ser relevante. Especialmente quando comparado ao dólar.

Ferguson compara os US$ 106 milhões doados à Ucrânia através do envio de criptomoedas aos US$ 19,6 bilhões que o governo dos EUA pretende enviar para o governo ucraniano caso a mais recente proposta do presidente Joe Biden seja aprovada pelo Congresso.

O historiador reconhece que criptomoedas como o Bitcoin e o Ethereum (ETH) sejam ativos desejáveis em nações política e economicamente instáveis, mas sugere logo depois que stablecoins atreladas ao dólar são ainda mais atrativas.

Ferguson destaca as valorizações de 21,7 vezes do Ethereum e de 5,4 vezes do Bitcoin de janeiro de 2020 até agora, mas destaca que, em momentos de crise, o fundamental é ter liquidez. Sistemas de pagamento digital alternativos que não utilizam a tecnologia blockchain, e evitam seus gargalos de escalabilidade, seriam mais eficientes.

Yuan

Nesse ponto, Ferguson diz ter chegado a temer uma possível ascensão do yuan, por causa dos sistemas de pagamento baseados em inteligência artificial de serviços como o Alipay, da Ant Financial Services Co.’s ou o WeChat Pay, da Tencent Holding Ltd.’s. No entanto, a intervenção estatal sobre estas empresas acabou limitando o crescimento destes sistemas.

A nova tática do governo chinês para ampliar a adoção do yuan tem como foco a criação de CBDCs (moedas centrais de bancos centrais) interoperáveis com o e-CNY, ou yuan digital. Alguns países são simpáticos à proposta e já estão trabalhando nesta integração. Enquanto isso, a alternativa chinesa ao sistema SWIFT já vem sendo utilizado por 1.200 instituições em 100 países diferentes.

Apesar disso, o yuan ainda está longe de se apresentar como uma opção factível ao dólar enquanto moeda de reserva, diz o historiador. Em janeiro deste ano, pouco antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, a China detinha pouco mais de US$ 1 trilhão de seus cerca de US$ 3 trilhões em reservas estrangeiras em títulos do Tesouro dos EUA.

Além disso, a moeda chinesa é pouco utilizada como ativo de reserva por nações soberanas, e o yuan responde por apenas 2,7% das transações realizadas pelo sistema SWIFT, o qual é utilizado por todas as potências econômicas do Ocidente.

Força do dólar

Ferguson recorre a outros historiadores contemporâneos para demonstrar a soberania do dólar no século 21. Como pontuou Adam Tooze, o Banco Central dos EUA (Fed) segue sendo a principal fonte de liquidez em tempos de crise financeira. Foi assim em 2008, durante a crise do subprime, e em 2020, quando o coronavírus desestabilizou a economia mundial.

Já Meyrick Chapman argumenta que, para a economia global, “os Estados Unidos continuam sendo o ‘consumidor de último recurso’. Até que isso mude, o dólar manterá sua ascendência”.

A valorização do dólar em 2022 seria a confirmação de ambas as afirmações. A moeda norte-americana ganhou força em relação à maioria de outras moedas fortes da economia mundial, principalmente o iene japonês, que desvalorizou quase 27% desde o início de 2021. O euro caiu 16%, e a libra esterlina, 10%.

Ferguson conclui sua reflexão sobre a inviolabilidade da hegemonia do dólar dizendo que a ordem executiva do presidente Joe Biden sobre as criptomoedas, ao afirmar que a “ascensão dos criptoativos cria uma oportunidade única para reforçar a liderança norte-americana no sistema financeiro global e na fronteira tecnológica”, mostra que ambos não são autoexcludentes, desde que a regulação ainda a ser aprovada não sufoque a inovação.

Ferguson chama atenção para um detalhe importante, que segundo ele foi fundamental para assegurar a liderança das empresas norte-americanas na primeira e na segunda eras da internet.

O Artigo 230 do Communications Decency Act, de 1996, viabilizou um marco regulatório especial para incentiva o rápido desenvolvimento de plataformas da Internet, isentando-as das responsabilidades legais associadas às grandes empresas de comunicação, ao mesmo tempo em que as concedia total autonomia para decidirem sobre questões relativas à moderação de conteúdo.

A questão fundamental para os legisladores é idealizar uma Artigo 230 que conceda liberdades semelhantes a protocolos de finanças descentralizadas (DeFi) e da da Web3. Ferguson cita uma postagem recente de Manny Rincon Cruz que propõe três diretrizes fundamentais:

– “Sem status de Provedor de Serviços de Ativos Digitais (VASP) para desenvolvedores de protocolos descentralizados. O código já está protegido pela lei que determina a liberdade de expressão e os protocolos descentralizados não devem ser considerados intermediários que forneçam serviços de exchange, custódia ou transferência porque os usuários do DeFi fazem transações diretamente entre si.

– Excluir as “explorações” de DeFi do Computer Fraud and Abuse Act (CFAA). Explorações ocorrem quando um usuário interage com um protocolo e, sem violar o código, realiza lucros aproveitando-se de oportunidades de arbitragem ou de falhas de programação. Contanto que os usuários não infrinjam outras leis criminais, as explorações ajudam o ecossistema DeFi expondo os códigos inconsistentes.

– Não há necessidade de enquadrar emissores de stablecoins, como Circle e Tether, à regulamentação bancária. Ao contrário dos depósitos bancários, os usuários podem vender seu USDC ou USDT sem resgatá-los. Assim, como essas stablecoins não são capazes de provocar “corridas bancárias”, elas não devem estar sujeitas a regulamentações iguais às impostas a instituições bancárias.”

Ferguson encerra seu texto afirmando que a coexistência entre o dólar e as criptomoedas será mutuamente benéfica:

“Assim como o Bitcoin nunca foi programado para ser – e nunca será – um substituto para o dólar, os protocolos DeFi são um complemento – e não substitutos – para o sistema financeiro existente, que sem dúvida continuaremos a usar nas próximas décadas para pagar nossos impostos e também, eu acho, nossos funcionários e nossas contas de serviços públicos.”

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