Influenciadores que recomendam investimentos entram na mira da CVM

Presidente da CVM diz que autarquia já investiga manipulação de mercado a partir de influenciadores de redes sociais

O pico de investidores individuais inscritos nas bolsas de valores do Brasil também impactou no comportamento dos brasileiros nas redes sociais, que consomem cada vez mais conteúdo financeiro e acabaram impulsionando uma série de influenciadores nesta área.

O caso recente mais famoso e polêmico é o de Betina Rudolph, da Empiricus, que em 2019 causou polêmica com um vídeo que dava a entender que ela havia ficado milionária com um só aporte pequeno em investimentos “certeiros”.

Meses depois, Empiricus e Betina tiveram de se retratar a mando da CVM, revelando o que o impactante primeiro vídeo escondia: que ela havia feito sempre novos aportes financeiros para chegar a seu primeiro milhão de reais, que o vídeo não era uma recomendação de investimentos, além de pagarem multa e serem ambos proibidos de oferecer produtos financeiros que não fossem essencialmente educacionais.

Pois outros influenciadores financeiros das redes sociais já estão na mira da Comissão de Valores Mobiliários, como revela notícia do Estadão desta terça-feira.

Segundo um estudo do Twitter, entre janeiro e abril deste ano, foram 2,6 milhões de posts sobre finanças relacionados ao Brasil, crescimento de 84% em relação a 2019. Dos usuários de Twitter no país, 20% têm investimentos em títulos ou ações.

Muitas vezes, os influenciadores financeiros baseiam-se no discurso da prosperidade a partir do enriquecimento rápido, atraindo audiência ao ostentar carros caríssimos, dinheiro vivo, imóveis, viagens, entre outras coisas. A linguagem e estética são muito semelhantes à de líderes de pirâmides financeiras, que também usaram redes sociais para atrair clientes.

Quem assiste a vídeos no YouTube certamente já se deparou com recomendações de investimentos e ostentação de enriquecimento rápido como forma de propaganda, algo que parece não incomodar a plataforma de vídeos.

Segundo o presidente da CVM, Marcelo Trindade, a autarquia e o Ministério Público Federal já investigam casos de influenciadores que podem estar envolvidos em manipulação de mercado:

“A CVM e o MPF têm empregado filtros que colhem nas redes sociais dados para investigar pessoas que usam de sua posição junto à audiência para práticas não permitidas, como manipulação de mercado. A gente pode não ter visto ainda nenhum caso muito rumoroso, mas está acontecendo.”

Segundo a matéria, parte dos influenciadores recebem dinheiro para recomendar a compra de ações – e até mesmo pirâmides financeiras. Em 2019, não foram poucos os casos de personalidades que estiveram envolvidas na promoção de grandes fraudes com criptomoedas como a Unick Forex.

A matéria ainda cita a cantora Juliana Bonde, 4 milhões de seguidores, que sugeriu investimentos em um “robô” para “ficar rico com criptomoedas”. O modelo é o mesmo da grande maioria dos golpes com criptomoedas investigados no Brasil no último ano.

Com o crash dos mercados neste ano, muito do discurso de prosperidade no investimento em ações também foi afetado, já que os mercados entraram em chamas e a perspectiva de recessão como consequência da pandemia fez muitos influenciadores serem questionados.

O engenheiro Henrique Bredda dono da gestora Alaska, com R$ 10 bilhões em ativos, viu seus fundos derreterem 70% e teve de afastar os boatos de que iria quebrar para seus 170 mil seguidores no Twitter:

“Quem sempre me acompanhou no Twitter sabia já das minhas crenças e qual a minha estratégia de investimentos. Na verdade, eu uso o Twitter para isso mesmo, para deixar claro o que eu penso e para ninguém nunca ser pego de surpresa com momentos de queda como o que ocorreu”

A supervisão da CVM pode ter um efeito benéfico para a educação financeira dos investidores, já que as redes sociais permitem a coexistência de líderes de pirâmides, analistas informais e especialistas financeiros legítimos na mesma plataforma.

Nem tudo, porém, é pirâmide ou manipulação. As redes sociais também são um meio legítimo de educação financeira séria e de monitoramento do mercado. O professor de canais digitais da ESPM, Alexandre Bessa, conclui dizendo que a comunidade “funciona quase como uma rede com manchetes de notícias para tomadas de decisão”.

Os cursos de educação financeira também são um mercado em expansão, com diversos canais arrecadando quantias milionárias em cursos online. O maior é o da empresária Nathalia Arcury, do Canal Me Poupe, com mais de 5 milhões de seguidores e R$ 20 milhões de faturamento em 2019. Para 2020, ela projeta R$ 45 milhões de receita. Cada curso custa cerca de R$ 2.000.

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