Auditora da FTX US domina mercado de Prova de Reservas e provoca questionamentos ao sistema

Uma empresa baseada na Califórnia vem se tornando a líder na auditoria de sistemas de provas de reservas de exchanges centralizadas, mas há um detalhe: a FTX US fez parte de sua carteira de clientes.

A Armanino, uma empresa de contabilidade especializada em ativos digitais, tornou-se pioneira e líder do nicho de auditoria dos sistemas de Prova de Reservas (PoR) de algumas das principais exchanges de criptomoedas.

Fundada em 2014, a empresa tornou-se uma das principais empresas de auditoria do mercado depois de lançar uma plataforma de verificação de criptoativos para comprovar as reservas de exchanges e plataformas de negociação.

Após a falência da FTX, a narrativa da adoção de Prova de Reservas por parte das empresas centralizadas ganhou força e apoio de grandes personalidades da indústria, como o CEO da Binance, Changpeng Zhao, e o CEO da Kraken, Jesse Powell, cuja empresa havia adotado o mecanismo ainda no começo de 2021.

Diante da ausência de regulação específica para estes agentes do mercado, a autorregulação pode ser uma boa política para conquistar a confiança dos clientes e uma disposição de se adequar à futura legislação, defendeu CZ em uma postagem publicada no Twitter durante o auge da crise da FTX.

O portfólio de clientes da Armanino é vasto e, além da Kraken, conta com a Gate.io e a Nexo, entre outras. Inclusive, a FTX US, de acordo com uma reportagem publicada pelo Wall Street Journal que destaca algumas falhas cruciais do sistema de comprovação de reservas de entidades centralizadas do mercado de criptomoedas.

A Binance, por sua vez, teria optado por uma outra empresa para auditar a sua Prova de Reservas. CZ preferiu não expô-la, de acordo com o Wall Street Journal,  sob a alegação de que “está havendo um bocado de escrutínio” sobre o tema no momento.

Auditoria da FTX US

O ex-CEO da FTX, Sam Bankman-Fried (SBF), que frequentemente gabava-se de suas iniciativas de autorregulação, contratou a Armanino em 2021 para auditar as finanças da FTX.

A Armanino chancelou a Prova de Reservas da FTX US, embora uma empresa propriedade privada como a FTX US e a própria FTX não tivessem que seguir os rígidos padrões contábeis que são exigidos de empresas públicas.

A empresa afirmou que prestou serviços à FTX US apenas até 2021 e sustentou a idoneidade da auditoria em uma declaração ao Wall Street Journal:

“A Armanino assegura que agiu em conformidade com todos os parâmetros e padrões profissionais em seu trabalho de auditoria.”

No entanto, o novo CEO da FTX, John Ray III, que assumiu o posto de SBF após a decretação da falência da empresa, declarou ao tribunal de falências que as auditorias realizadas pela FTX no passado não são confiáveis.

“Há preocupações substanciais no que se refere às informações apresentadas nos atestados financeiros da empresa”, disse Ray, particularmente em relação à FTX Trading LTD., que era responsável pelas operações globais da exchange e não atuava no mercado norte-americano.

Mesmo que a Armanino não tenha falhado ao auditar as contas da FTX, a dominância de uma única empresa no campo de auditoria de Provas de Reservas é motivo de preocupação. Além das deficiências que o sistema apresenta.

Deficiências do sistema de Prova de Reservas

Conforme o Cointelegraph Brasil havia destacado anteriormente, o sistema de Prova de Reservas “é um bom começo”, mas não é comparável a uma auditoria completa, que segue os mais altos padrões de conformidade, declarou Mriganka Pattnaik, executiva-chefe da Merkle Science, uma firma de avaliação de risco. E completou:

“Prova de Reservas não são suficientes para prevenir que outros desastres aconteçam.”

Um ponto de falha dos sistemas de Prova de Reservas é que eles não têm acesso à gestão e aos controles internos das empresas. A checagem das práticas administrativas de uma empresa é obrigatória em auditorias de empresas públicas, de acordo com uma lei aprovada nos EUA após a falência da Enron.

Mas empresas privadas, como era o caso da FTX e da grande maioria das exchanges de criptomoedas, estão isentas deste tipo de escrutínio, afirmou Daniel Taylor, diretor do Laboratório de Análises Forenses de Wharton, na Universidade da Pensilvânia:

“Se houvesse um controle interno rigoroso do mesmo nível que é feito pelas Quatro Grandes [firmas de contabilidade], ele teria revelado deficiências significativas nos controles internos da FTX. E é muito provável que estes problemas teriam sido detectados mais cedo”.

Uma das principais críticas à checagem dos sistemas de Prova de Reservas utilizado pela Armanino e outras empresas é que, às vezes, os dados dependem de software e de informações disponibilizadas pelas próprias empresas que estão sendo auditadas.

Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil, o cofundador da Ethereum (ETH), Vitalik Buterin, defendeu a adoção de provas criptográficas mais avançadas para comprovação da solvência de exchanges e outras plataformas de negociação de criptomoedas.

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